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Nostálgico Retorno |
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Por amar os andares da infância, retornei ao rincão querido, com desejos de pisara alva areia do largo da vila, de saborear o cheiro do muçambê pegajoso e o amargo gostoso da seiva do fedegoso macerado. De alcançar surpresa em cada curva da estrada, chegar enfim a vislumbrar o cruzeiro do patamar da Igreja do Senhor do Bonfim, e deste mirar a cruz do topo da serra, com seus ouricurizeiros balançando as palmas ao vento. Ouvir o galo cantar na madrugada, o mugir das vacas chamando as crias, embalado pelo musical tocar dos chocalhos. Assistir as mestras prepararem petas, prensando a mochila nas mãos, fazendo com que a massa desenhe arabescos nas assadeiras untadas de óleo. Vê-las retirá-las, quentes, dos fornos de lenha no fundo do quintal, e comer gostosamente o requeijão ainda quente na raspa do tacho. Nas horas quentes, refrescar-me à sombra dos tamarindeiros centenários, deixando-me envolver no papo gostoso, macio e pachorrento do nosso recordar familiar. Como fundo musical, o chilrear de milhares de pintassilgos esvoaçantes, irrequietos, do tamarindeiro de Padrinho Zezé, para o de Tio Luizinho, daí para o umbuzeiro da casa do Coqueiro e, ainda, para o bouganville de tia Cota. À tardinha, após o banho, ir para o pátio da Igreja, onde bandos de andorinhas, chegadas quem sabe das partes frias do hemisfério norte, para o cálido clima desse nosso pequeno mundo, alimentam os seus filhotes insaciáveis, com borboletas alcançadas em pleno vôo, em lindas acrobacias. Torcer para que uma chuva calma chegue à noite e, como uma canção de ninar, embale os meus sonhos de menino sertanejo, tamborilando no telhado, e o cheiro de terra molhada, no cio da natureza, encha o meu olfato com sua magia maravilhosa. Onde estão estas coisas tão belas na sua singeleza, que compuseram, o entorno de minha infância? Gritei aos quatro ventos no desespero do perdedor, chamando-as para aconchegarem o meu coração cheio de saudades. Não ouvi resposta. O silêncio foi meu companheiro. Para onde levaram a areia branca do quadro da Vila? Os mussambês feneceram e não retornaram a espargir o perfume de suas pequeninas flores, chamando as abelhas. Não mais fedegoso, não mais vacas atravessando a rua com seus úberes carregados. Não mais mulheres fazendo petas sob o olhar alvoroçado da criançada acocorada em volta. Onde se meteram os pintassilgos? Provavelmente nos fundos da caatinga, onde haja mais espaço, mais natureza para viverem. E andorinhas, por que tão poucas? Em compensação, os pardais, esses infames europeus urbanos, com seu canto desagradável e repetitivo, assumiram todos os espaços. As curvas da estrada já não oferecem surpresas. Já não há curvas, só o horizonte imenso c devastado. Os belos cavaleiros, com suas montarias bem equipadas, já não desfilam emparelhados, em longa disputa de marcha e “esquipa”. Seus espaços foram ocupados pelas camionetes fedendo a gás, que promovem a evacuação das pessoas num movimento de onda: chegam ao tocar do sino e vão embora, tão logo os noiteiros pronunciam o “Amém" final da novena. A chuva não veio, meus sonhos de menino se esvoaçaram nas asas dos pintassilgos, e o acalanto do canto do galo já não desperta as alegrias de uma alma que desejou retornar a esse mundo colorido da meninice, atirando-a a um nostálgico retorno. Caboclo, hoje, é somente saudade! |
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José Theodomiro de Araújo (in memorian) |