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Debaixo do tamarindo |
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Caboclo é um povoado Do Sertão Pernambucano Que mesmo sendo isolado Tem muito calor- humano. Naquele rincão perdido Seria mais esquecido Não fosse o aspecto lindo Da árvore enorme que tem Onde não falta ninguém DEBAIXO DO TAMARINDO.
Nos Confins de Petrolina Inda no século passado Foi por dona Mirquelina Um tamarindo plantado. Naquela terra cresceu, Copou, se desenvolveu E para o céu subindo Como um majestoso prédio Hoje a gente espanta o tédio DEBAIXO DO TAMARINDO.
No modesto povoado A vida não estancou. Muito neto encapetado Virou ídolo do avô. Até os que foram embora, Cresceram, estudaram fora, Estão voltando e se unindo Engenheiros, arquitetos, Pra sonhar belos projetos DEBAIXO DO TAMARINDO
Alguém que não foi feliz Por ter deixado o lugar, Soube voltar quando quis Ao seu primitivo lar. E na mudança de planos Com a passagem dos anos Foi aos poucos descobrindo Que a paz que buscara a esmo Permanecera ali mesmo DEBAIXO DO TAMARINDO
A sua copa altaneira Exerce um grande fascínio E sua sombra fagueira É um imenso condomínio. Muitas redes são armadas Pessoas nelas deitadas Ficam prosando ou dormindo E a vida passando calma Unindo matéria e alma DEBAIXO DO TAMARINDO.
Até mesmo quando há missa Na freguesia pequena, Há quem dê curso à preguiça Sob aquela sombra amena. Uns falam de obrigação Outros de religião, Do pecado se eximindo, Quem confessou fica leve Diz que a Deus nada mais deve, DEBAIXO DO TAMARINDO.
Mil abelhas africanas Que chegaram do nascente, Por duas ou três semanas Ficam nos galhos da frente. Seus ferrões são como setas E elas tão irriquietas Que até cachorro latindo Deixa o enxame nervoso, Pra ferroar preguiçoso DEBAIXO DO TAMARINDO.
Um gato arisco e esperto Entre as folhas amparado, Fica até que chegue perto Um passarinho azarado. O bicho dá um pinote, Como sempre acerta o bote Mesmo do galho caindo, Com suas garras pequenas Faz com que só fiquem as pernas DEBAIXO DO TAMARINDO
Cansado duma caçada Chega um cachorro, no mato. Uma orelha ensanguentada Da gula de um carrapato. Deita-se na sombra amiga No vai e vem da fadiga A língua entrando e saindo, Chamá-lo não adianta Nem tão cêdo se levanta DEBAIXO DO TAMARINDO.
Nos terreiros laterais Da capela antiga e rústica, Pequeninos animais Berram sentindo a acústica. Cabras lambendo os filhotes, Carneiros dando pinotes Enquanto o sol vem surgindo, Porém na hora mais quente Misturam-se bicho e gente DEBAIXO DO TAMARINDO.
Nas festas do advento Do Natal ao Ano Novo Sob o verde monumento Se reúne todo povo. Todos ali se conhecem Se abraçam e a Deus agradecem Mais um ano que vem vindo, Os mais velhos conversando E a criançada brincando DEBAIXO DO TAMARINDO.
Quantos românticos namoros Ali tiveram começo? Desabafos, desafôros Tiveram o mesmo endereço. Por lá muitos se encontraram Quando alguns se separaram Uns chegando outros partindo Chegadas e despedidas Já modificaram vidas DEBAIXO DO TAMARINDO.
Quando um boato aparece Na bela localidade Na redondeza acontece Grande curiosidade. Enquanto não se convence A família caboclense Vai à árvore confluindo Pra ver se é fita ou se é fato Tirando a limpo o boato DEBAIXO DO TAMARINDO.
Chega um animal da roça, Várias coisas transportando A carga duma carroça Sobre o seu lombo pesando. Mas seu dono não demora Coloca logo uma escora O peso diminuindo, Parecendo um magistrado Indultando um condenado DEBAIXO DO TAMARINDO.
Um mercador ambulante Chegando no povoado, Se aboleta num instante Junto ao tronco agigantado. De dois ou três animais Tira quatro ou seis costais O seu produto exibindo, Mostra, elogia, conversa Parece um Mercado Persa DEBAIXO DO TAMARINDO.
Quanto mais o tempo passa E o tamarindo envelhece Mais aumenta a sua graça E a sua importância cresce. Lá se vê reunião Do povo da região Seus problemas discutindo Até coisa sem sentido Mas é tudo resolvido DEBAIXO DO TAMARINDO
A telefoto mental Dum filho ausente da terra Revela o cartão postal Do pôr do sol sobre a serra. Os foscos raios do ocaso Sobre o horizonte raso Pouco a pouco se esvaindo. Quem sente saudades pensa Que a noite é muito mais densa DEBAIXO DO TAMARINDO.
Tamarindo das canduras Protegido dos arcanjos Não és o das desventuras Como o de Augusto dos Anjos. O teu sesquicentenário Teu mais belo aniversário Não será um tempo findo, Virão milhares de glórias E muitas novas histórias DEBAIXO DO TAMARINDO. |
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Gregório Menezes |
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Poeta Popular |